Quando olho para o Brasil de hoje, penso em uma casa muito antiga.
Uma casa construída sobre uma natureza magnífica, que levantou suas paredes, atravessou gerações e continua de pé. Mas está largada.
Há cômodos bagunçados, sujeira acumulada, paredes que já não sustentam o que deveriam sustentar. Algumas partes pedem demolição. Outras precisam urgentemente ser preservadas.
E há um piso lindo debaixo deste retrato de abandono.
Um piso antigo, coberto pela poeira, maltratado pelo tempo, que ainda está ali. Como tantas coisas neste país que continuam belas apesar de terem sido esquecidas por quem deveria estar cuidando delas.
E acredite! Ainda tem gente morando nessa casa. Gente cansada, adoecida, muitas vezes sem acesso ao básico, vivendo sobre uma terra de abundância e, ao mesmo tempo, cada vez mais distante da própria natureza que a sustenta.
Quando olho para tudo isso, fico indignada. Revoltada! Há coisas que eu gostaria de arrancar pela raiz, paredes que derrubaria sem nenhuma cerimônia e cômodos nos quais tenho até medo de entrar.
Mas eu ainda consigo enxergar a beleza dessa casa. E é justamente por reconhecer a sua riqueza roubada que me incomoda tanto vê-la assim, arruinada.
Sim, eu sei que pode ser fácil olhar para uma casa abandonada e perguntar: por que abandonaram uma casa tão linda como esta? Quem deixou a sujeira acumular? Quem arrancou o que havia de valor? Quem deveria ter cuidado e não cuidou?
Só que o maior problema é: Eu moro nesta casa!
Não estou olhando para ela da calçada.
Sou uma das pessoas que acordam todos os dias dentro dela, circulam por seus cômodos, obedecem às suas regras, usufruem daquilo que ela oferece e sofrem pelo que lhes falta.
Então, por mais que existam responsáveis pela organização da casa e por mais que algumas responsabilidades sejam muito maiores do que outras, chega uma hora em que não consigo continuar olhando para a sujeira como se ela pertencesse exclusivamente aos outros.
E a pergunta começa a mudar.
Já não é apenas:
O que fizeram com o Brasil?
É também:
O que nós temos feito com a casa em que vivemos?
As fundações da casa
Se eu moro nesta casa, preciso reconhecer, no entanto, que não fui eu quem construiu suas fundações.
Nasci com muita coisa já pronta. Paredes levantadas, cômodos divididos, regras estabelecidas e uma história muito anterior à minha chegada. E uma das coisas mais difíceis para quem recebe uma casa antiga é justamente distinguir aquilo que precisa ser preservado daquilo que continuamos repetindo apenas porque sempre foi assim.
O Brasil nasceu como país independente em 1822. E gosto de pensar no simbolismo dessa palavra: independência.
Porque, quando olho para o mapa do céu daquele momento, reconheço muito do povo que aprendi a conhecer vivendo aqui. Um povo que precisa se virar nos 30. Que empreende muitas vezes não porque alguém lhe ensinou empreendedorismo, mas porque precisa encontrar um jeito de sobreviver. Que improvisa, inventa, mistura e cria. Que encontra espaço para o riso no meio da dificuldade e esperança onde, olhando de fora, é mais provável encontrar apenas desalento.
É um país construído pela mistura de muitos povos, culturas, crenças e rituais. Um lugar em que o sagrado ganhou tantas línguas que às vezes parece conversar com Deus por várias delas ao mesmo tempo.
Mas independência não significa necessariamente consciência do próprio poder.
Sessenta e sete anos depois daquele 7 de setembro, a estrutura da casa mudou novamente. Em 1889, D. Pedro II foi deposto por um movimento militar e a República foi instituída. A participação popular naquela mudança foi pequena e grande parte da população assistia perplexa aos acontecimentos sem compreender inteiramente o que estava acontecendo. A família imperial seria enviada ao exílio logo em seguida, embarcando de madrugada, enquanto o Rio de Janeiro dormia. D. Pedro II partiu sabendo que provavelmente jamais voltaria ao Brasil. E morreria no exílio, dois anos depois, querendo que a terra do país que amava o cobrisse.
Mais uma vez, a casa mudou enquanto grande parte de seus moradores dormia.
E por isso, hoje me pergunto: quantas vezes mais temos repetido essa dinâmica sem perceber?
Aquele brasileiro que aprendeu a se virar nos 30 continua levantando da cama cedo para sua batalha diária de sobrevivência. Trabalha, empreende, improvisa, faz muito com pouco e encontra saída quando aparentemente não existe jeito.
No entanto, me incomoda perceber que podemos ser extraordinariamente independentes para sobreviver e, ainda assim, entregar a outros a responsabilidade pelo destino da nossa casa.
Por que permanecemos esperando que alguém conserte, organize e governe a casa em que moramos? Por que continuamos acreditando que precisamos desse alguém para nos sustentar porque somos pobres?
Sempre esperando que um salvador da pátria descubra o que está errado e tenha coragem de resolver o que nos mantém impotentes, enquanto a casa continua desmoronando.
Uma armadilha difícil de perceber: confundir a necessidade legítima de quem administra a casa cumprir a sua responsabilidade com a entrega da nossa própria responsabilidade sobre ela.
Sendo que uma coisa não elimina a outra.
Eu não governo o Brasil. Não faço as leis sozinha. Não administro seus recursos nem decido individualmente os rumos de suas instituições. Existem responsabilidades que pertencem a quem recebeu poder público para exercê-las.
Contudo, isso não me transforma em hóspede. Continuo sendo moradora.
E uma casa na qual os moradores acreditam que todo o poder pertence apenas a quem a administra corre um risco enorme: esquecer que, muito antes de existirem administradores, a casa já pertencia a quem vive nela.
Os moradores
Se a casa pertence a quem vive nela, então preciso olhar com mais atenção para seus moradores.
E é aqui que volto ao mapa do céu da Independência, porque algumas de suas características me ajudam a compreender as contradições que encontro quando olho para o Brasil.
O Ascendente está em Aquário. O Sol em Virgem, junto de Mercúrio e em trígono com Saturno. E na Casa 4 — que, em Astrologia, fala de território, raízes, pertencimento e povo — estão Lua e Júpiter em Gêmeos.
Não consigo olhar para essa combinação sem reconhecer um pouco de nós.
O Sol em Virgem me lembra de uma característica que sempre me chama a atenção no brasileiro: a necessidade de se sentir útil. Basta uma enchente, uma tragédia ou qualquer situação de grande dificuldade para vermos pessoas se mobilizando para ajudar outras que nunca viram na vida. Alguém arrecada alimentos, outro oferece abrigo, cozinha, transporta, organiza, doa.
Junto de Mercúrio e Saturno, reconheço também o povo que trabalha, conversa, critica, cria e encontra na comunicação uma maneira de atravessar as dificuldades. Tudo vira assunto. Tudo vira meme. Até da própria desgraça o brasileiro consegue fazer piada.
Existe também um Brasil que sonha com o futuro. Que deseja liberdade, independência e novidade. Um país que parece estar sempre imaginando aquilo que ainda pode vir a ser, enquanto tenta resolver o que precisa ser resolvido hoje.
O Ascendente em Aquário é o que talvez melhor traduza a velha expressão de que somos “o país do futuro”.
No entanto, esta ideia de futuro é uma promessa perigosa quando começamos a utilizá-la para adiar o presente.
Enquanto esperamos pelo Brasil que um dia dará certo, existe um Brasil que acorda cedo, abre a porta e precisa resolver a vida com aquilo que tem hoje.
Um povo que conversa, negocia, improvisa, inventa uma saída, muda a rota e aprende fazendo. Uma qualidade extraordinária para sobreviver, que também pode nos ajudar a suportar por tempo demais aquilo que já deveria ter se tornado insuportável.
É a tal coisa de colocar panos quentes no que, de fato, deveria ser inadmissível.
É o brasileiro que dá um jeitinho. Faz uma piada. E diz: amanhã a gente vê.
E a vida continua. Tudo sempre igual. Insuportavelmente igual ao que não suportamos mais ver.
Às vezes tenho a impressão de que aprendemos tão bem a sobreviver dentro de uma casa malcuidada que começamos a confundir nossa capacidade de adaptação com a obrigação de continuar nos adaptando.
A infiltração aumenta, colocamos um balde. Abre outra goteira, procuramos outro. E ainda chamamos o vizinho para tomar um café enquanto esperamos a chuva passar.
Não estou desprezando essa capacidade. Eu também sou brasileira. Conheço a força que existe nela.
O que me pergunto é: em que momento a esperança deixa de nos ajudar a enfrentar uma realidade difícil e começa a nos impedir de transformá-la?
Lua e Júpiter, na minha leitura deste mapa, falam justamente dessa enorme capacidade de acreditar que as coisas vão melhorar.
E é bom ter esperança. Só que o problema começa quando a esperança passa a ficar no verbo: esperar.
Esperar o futuro.
Esperar o governo.
Esperar a próxima eleição.
Esperar o salvador da pátria, enquanto continuamos nos virando nos 30.
E a questão pode não ser apenas se o brasileiro sabe sobreviver. Isso nós já provamos que sabemos.
A pergunta é se conseguiremos utilizar toda essa criatividade, inteligência e capacidade de adaptação não apenas para continuar vivendo dentro da casa como ela está, mas para participar conscientemente da sua transformação.
Pois existe uma diferença enorme entre dar um jeito para continuar vivendo entre as goteiras e decidir que chegou a hora de consertar as infiltrações.
O que escondemos no porão
Só que consertar as infiltrações de uma casa antiga exige mais do que trocar os baldes de lugar.
Em algum momento será preciso descobrir de onde vem a água.
Quando olho para os movimentos atuais no mapa do Brasil, é Plutão que me leva a essa parte da casa.
Desde 2018, ele atravessa a Casa 12 desse mapa. E, para mim, a imagem é quase literal: a Casa 12 é o porão da nossa casa.
É onde fica aquilo que preferimos não ver. O que foi escondido, esquecido, negado ou simplesmente empurrado para algum canto, longe dos olhos dos moradores.
Plutão entra justamente nesses lugares.
Seu movimento é de transformação, mas antes de transformar ele expõe. Abre as portas, revira as caixas, traz à superfície aquilo que permaneceu escondido.
E não faltam caixas sendo abertas no Brasil.
Questões de poder, corrupção, controle, desigualdade, privilégios, manipulação, violência e tantas outras sombras que atravessam a nossa história passaram a ocupar cada vez mais espaço nas nossas conversas.
Só que descobrir a sujeira não significa ter limpado a casa.
Podemos passar anos apontando para o que encontramos no porão. Discutir quem colocou cada coisa ali, quem sabia, quem se beneficiou, quem deveria ter feito alguma coisa.
Tudo isso tem a sua importância.
Mas chega uma hora em que a pergunta precisa mudar:
O que fazemos com aquilo que agora conseguimos enxergar?
Plutão não fala apenas de revelação. Fala de transformação. E transformação exige mudança de comportamento.
Não basta descobrir o que precisa mudar no país.
Precisamos também olhar para aquilo que continuamos reproduzindo dentro da própria casa enquanto denunciamos o que encontramos no porão.
E, a partir daqui, essa história começa a ficar um pouco mais desconfortável para mim.
Eu também moro nesta casa.
A escolha de quem somos
E reconhecer isso me coloca diante de uma questão muito mais difícil do que apontar tudo aquilo que considero errado no Brasil.
Como atravessar aquilo que considero uma realidade sombria sem me tornar interiormente semelhante àquilo que combato?
Não tenho uma resposta pronta.
Há dias em que observo os acontecimentos e consigo compreender que não quero entregar minha consciência ao medo, à raiva ou à necessidade de encontrar inimigos.
Em outros, entro no ringue.
E é nessa hora que me lembro de Matrix.
Durante muito tempo olhei para aquela história pensando em Neo e no Agente Smith como forças que se enfrentavam. De um lado, alguém tentando despertar e se libertar. Do outro, um sistema capaz de ocupar tudo, reproduzir-se e transformar qualquer pessoa em mais uma extensão de si mesmo.
Hoje essa imagem ainda me provoca.
O que mais me assusta não é apenas a existência de Smith. É perceber a facilidade com que aquilo que combato fora de mim pode encontrar espaço para se reproduzir dentro de mim.
Posso condenar o ódio e acabar odiando quem pensa diferente. Posso questionar mecanismos de controle e, sem perceber, permitir que o medo controle meus pensamentos.
E posso defender a liberdade enquanto transformo o outro em inimigo apenas por defender uma crença diferente da minha.
Então, de que liberdade estou falando?
A Matrix deixa de ser apenas uma metáfora para o sistema e passa a representar também aquilo que o sistema consegue reproduzir dentro de nós.
Eu compreendo isso, mas não dá para viver em pleno equilíbrio das emoções o tempo inteiro.
Uma parte de mim sabe que não quer se entregar ao medo de ser controlada pelo sistema. Outra ainda entra no ringue com Smith.
E é justamente quando estou nesse ringue que mais preciso me lembrar:
Maria, não sucumba.
Repita comigo:
Que eu consiga ver sem ser consumida pelo que vejo.
Que eu discorde sem odiar.
Que eu participe sem entregar minha consciência.
Que eu tenha coragem sem precisar fabricar inimigos.
Que eu não confunda esperança com a espera por um salvador.
Que eu consiga reconhecer minha própria sombra quando estiver tão ocupada denunciando a sombra do mundo.
E, principalmente, que eu não esqueça que continuar consciente diante daquilo que me revolta também faz parte da transformação que desejo ver acontecer.
Eu também estou tentando não sucumbir.
Não sei qual será o próximo capítulo da história desta casa. Sei que continuarei vivendo nela, participando das escolhas que me cabem, cumprindo as regras enquanto forem as regras e exercendo o meu direito de discordar daquilo que considero errado.
Mas existe uma parte dessa história que não quero mais entregar a ninguém.
A escolha de quem eu sou enquanto tudo isso acontece.
Posso não decidir sozinha quem administra a casa, quais leis serão criadas ou quais caminhos o Brasil seguirá. Mas posso decidir quanto poder entrego ao medo, ao ódio e àquilo que tenta capturar a minha consciência.
Foi aí que comecei a compreender que sair da Matrix não significa necessariamente abandonar o sistema.
Continuamos vivendo no mundo. Trabalhamos, pagamos impostos, votamos, obedecemos às leis, discordamos, participamos.
A diferença está em não permitir que o sistema ocupe o trono da nossa consciência.
A casa continua precisando de reparos e o porão ainda não terminou de ser aberto.
Mas agora eu volto à pergunta que atravessou todo este texto.
Quem eu escolho ser diante daquilo que não posso simplesmente deixar de ver?
Para mim, despertar começa aí.
Não na certeza de que sei como salvar o Brasil.
Na consciência de que a transformação desta casa também passa pela maneira como escolho viver dentro dela.
Brasil, acorda.
Eu também estou tentando.
Faça 🔅 Seu Céu Brilhar
Seja a LUZ que ilumina o caminho da sua MISSÃO
